segunda-feira, 15 de julho de 2013

Em favor dos protestos de junho

Em favor dos protestos de junho

Wellington Trotta

Mesmo que estejam errados quanto ao pleito, eu os sigo.
Sigo porque a passividade irmana-se à alienação,
Envolvendo o espírito na dissolução de si mesmo.
Mesmo que estejam errados quanto à forma, eu os sigo.
Sigo em virtude de a ação romper com ignorâncias,
Descortinado o impacto do esclarecimento.
Mesmo que estejam errados por diversos motivos, eu os sigo.
Em silêncio, refletindo sobre insignificâncias quotidianas,
Sobretudo a minha acordada pelo grito: Eu protesto.

Eu protesto por diversas razões,
Inclusive contra eu mesmo nesses anos
Cujo sono entorpeceu a indignação.
Eu protesto, protestando contra
Os discursos fáceis sem explicação.
Eu protesto contra o mundo opinativo
Sem compromisso com a verificação.
Eu protesto em favor de
um cântico novo,
Entoando hinos de urgente liberdade.

Mesmo que o protesto feneça,
Ele deixa suas marcas no silêncio,
Rompendo o emudecimento.
Mesmo que o protesto se extinga,
Ele cumpre o destino de um ciclo:
Pariu novas perspectivas históricas.
Mesmo que o protesto termine,
Ele ecoará nas almas sensíveis,
Mesmo que dele discordemos.

A discordância tem raízes sensitivas:
Visão e audição constituem a opinião,
Avessa à análise ancorada na ratio,
Invisível ao lodoso senso comum
Sempre em incontinência verbal
Em favor de todo disparate.

Mesmo que o tempo envelheça o protesto,
Mesmo que a mídia sugue o protesto,
Mesmo que o poder desarticule o protesto,
Mesmo que o burguês ria do protesto,
Mesmo que a canalha escarneça o protesto,
Sigo seu rastro existencial e necessariamente.



Protesto na AV. Rio Branco com Candelária - RJ 17.06.2013


Protesto na Presidente Vargas em 20.06.2013


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Hölderlin IV

Hölderlin IV

Wellington Trotta


Despertai, poetas, despertai os que ainda
Estão dormindo, daí-nos leis, daí-nos vida.
                                                     Hölderlin


Toda cultura nasce da pena do poeta,
Seus versos recortam almas como seta,
Evocando cada uma para suprema meta.

Ele é herói por inteiro,
Seu sangue transborda do tinteiro
Pelo papel como suor derradeiro,

Batalha pela urgência da vida,
Reclama a lei que está escondida
Sob véu ideológico de sórdida mentira.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Hölderlin III


Hölderlin III

Wellington Trotta

Estarei contente, mesmo se minha lira
Não me acompanhar na morte; uma vez
Vivi como deuses, e mais não preciso.
                                     Hölderlin


                                                                      
Não levarei nada desta existência,
Deixarei tudo na imanência.
Enquanto parto à transcendência,
Lambuzem a farta indigência.

Não sei qual mundo aportarei,
Que importa, apenas viverei.
Espero somente vida sem lei,
Fartamente nela me embriagarei.

Igual ao poeta, pouco preciso,
Talvez o sol, quem sabe um sorriso.
Navegarei sobre as luzes de um rio,
Assim como o outro, isso é preciso,


domingo, 8 de julho de 2012

Hölderlin II


Hölderlin II

Wellington Trotta

“Entendi o silêncio do Éter,
As palavras dos homens jamais entendi”
                                              Hölderlin


No silêncio se ouve o som da poesia.
Sem boca, sem voz, sem parca alegria.
Ela se faz presente em cada dia a dia,
Basta abrir o peito e sentir sua folia.

A loucura das palavras é posta à filosofia,
O emaranhado pensamento sorri para poesia.
Não que deboche delas, ao se perder na fantasia,
Nas duas esferas, porém, uma pensa, outra cria.

Os homens falam, falam e nada dizem,
Buscam um soneto, uma melodia, só fingem.
Ao “louvarem” a reflexão, vivem na vertigem,
Nesse passo a autocrítica é um vale virgem.





terça-feira, 3 de julho de 2012

Hölderlin I



Hölderlin I

Wellington trotta


"Mas a nós foi-nos dado
 Não repousar em parte alguma”
                                     Hölderlin

O descanso não é permitido,
Apenas o trabalho exigido.
Nos dias vive com único sentido,
Lutar como dever cumprido.

Aos comuns o tempo passa,
O inquieto ao destino se amassa.
No fogo em que o eu se assa,
O cosmo inteiro a ele se enlaça.

Não há mistério para o labor,
Assim como inexiste o tolo furor.
Para o altaneiro desafio à dor,
O inquieto vive profundo amor.

Canta o presente como futuro,
Não espera, conquista o mundo.
Consigo, não houve o túmulo,
Renova o passado a todo segundo.


domingo, 24 de junho de 2012

Pé descalço



Pé descalço

Wellington Trotta

Busco caminhos diariamente,
meu pé sempre está descalço,
subo e desço permanentemente,
sob olhar cada vez mais falso.

Entra noite e sai o sol ardente,
a lua alumia os soluços do cadafalso,
são lágrimas de suor corrente,
caem sobre o chão, gotilhando mormaço.

A felicidade sorrindo foge quotidianamente,
as mãos acenam um adeus palhaço,
patético como a fúria do destino decadente,
pesares de sonhos repletos de cansaço







sábado, 19 de maio de 2012

Insensato



Insensato

Wellington Trotta

Palavra, palavra, palavra...
Por que você tanto me escapa?
Palavra, palavra, palavra...
Por que essa fuga desesperada?

Criatividade, criatividade, criatividade...
Por que não toca na minha entranha?
Criatividade, criatividade, criatividade...
Por que essa escassez tamanha?

Ideia, ideia, ideia...
Por que não a possuo?
Ideia, ideia, ideia...
Por que não a construo?

“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”
Quando semeio iniquidade.
“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”
Quando colho perversidade.

terça-feira, 27 de março de 2012

VASUDEVA



 VASUDEVA

Este belo poema é do meu amigo Gianriccardo Grassia Pastore

a água corre continuamente
para todo o sempre
a mesma e outra

corre a voz da vida
que banha presente e passado
que tudo sabe
do que foi
e do que virá a ser
que tudo leva e tudo traz

sempre a caminho da outra margem
que não é destino
nem partida

o rio revela o segredo
que o tempo não existe
é igual e outro
como água que corre
é só presente
não há fonte nem foz
nada foi
nada será
tudo é

o tempo é a medida da ansiedade e angústia
por um tempo que não virá



sábado, 12 de março de 2011

Que fim tem uma ação amorosa?

Que fim tem uma ação amorosa?
Wellington Trotta

Por que não diz que se ama de vez?
Que mal há numa verdade tão simples?
Que fim tem uma ação amorosa?
Será biológica ou uma chama divina?

A minha amada devo dizer que a amo,
Sem levar em conta seu fim,
Ele já está posto em um pressuposto:
Amo, devo expressar essa necessidade.

Se amo e escondo é um crime,
A punição é a perda da autenticidade.
Sensação que se tem é o dito de pronto,
Assim a missão é cumprida, quem sabe?


quarta-feira, 9 de março de 2011

Roucamente

Roucamente
Wellington Trotta 

Percebi que, pelo passar das horas, seu sorriso exalava
uma oração aos meus olhos perplexos pela luminosidade.
A música entoada pelo seu brilho ensurdecia minha visão e
calava o meu olhar extasiado por absorver tanta vida.
Estranho sentimento de perda seus lábios me inspiravam
através de sua voz, roucamente distante.


α ... Ω




Sábado


Sábado

Wellington Trotta

Graças a deus hoje é segunda-feira,
Até sexta estou livre de lembranças.
Hoje é segunda e já temo o sábado
Onde sua presença é certa.

Hoje, segunda, nela me divido em muitos
Como mestre sem cátedra, banhado
Por muitos olhares devastadores
Não como o de sábado, mas também terríveis.

O de sábado é a ausência de sua ausência,
Ao contrário dos dias úteis da semana,
Repletos de permanência pela curiosidade.
Sábado e segunda são atravessados pelo domingo.

Nesse dia o silêncio é sepulcral, sem corpo.
Sou invadido pelo desejo de nele mergulhar
Na necessidade de deixar segunda nascer.
São olhares antagônicos que me comprimem.

Um ausente por descuido meu, displicência,
Outros por exigências das necessidades.
Estes, suaves, até amorosos em alguns casos,
Aquele a terrível insistência do tudo.

Hoje é domingo e a solidão é bela,
Nela me comprazo como preciso,
Sou livre porque penso e ajo solto.
Por isso não a temo, a venero.

Solidão é um verdadeiro estado embriagador
De múltiplos sentidos para o espírito,
Condição da matéria-prima para a criação,
Nela o pensamento encontra sua vida.

Solidão como morte é o sábado: esperança
De uma carícia perdida na vida solitária.
Solidão como esperança está na segunda:
São os nãos dos jovens que desejam um tipo de sim.

Sábado o pensamento angustiado,
Domingo sua liberdade,
Segunda sua efetividade.
Tudo é vida se for sentida.

Sábado é como o tormento de Prometeu
O dia é dilaceramento do fígado pela lembrança,
A noite é o tormento pela sua regeneração.
Sábado sou um Prometeu acorrentado.

Domingo sou o pássaro Fênix quando renasço,
Liberto das correntes da lembrança, voando
Na solidão do infinito de puras ideias,
Conjecturas perfurando rochedos recorrentes.

Segunda sou apenas um pobre bípede paradoxal:
 Ouvido por uns e ignorado por muitos.
A juventude precisa de si mesma, de sua tristeza
Para ser sua experiência como vida.

Sexta é o prelúdio do vazio,
Sábado é o crepúsculo do vácuo
Domingo é a agitação da solidão,
Segunda é o silencio de minhas palavras.







domingo, 6 de março de 2011

Impressões de Guernica

Impressões de Guernica

Wellington Trotta
A destruição se abateu furiosamente
Como um furacão de artefatos metálicos,
Onde David perdeu para Golias, de fato.
Guernica é a história real sobre o mítico relato .

Crueldade de fora com mãos de dentro,
Tortura de um ideal que sofre, horrivelmente.
Odores do sangue correndo pelas ruas
De transeuntes atônitos, juntando seus pedaços.

Guernica é o quadro da crueldade que a tela
Do artista registra curiosamente bela.
É a natureza da arte: desvelar o real
Sem interferir no seu destino.

O sofrimento de Guernica é a tolice antitética
Em opor liberdade à igualdade!
Justificar a superioridade de uns sobre outros.
Guernica é a dor humana fora dos seus limites.

Mas será que há limite à dor humana?
A história é a ilimitude desse tormento,
Marca, qual relógio, o sofrimento
Dessa ação aguda-desumana.

A própria expressão de dor do cavalo,
Manifesta o horror do fato.
Guernica faz da imaginação realidade,
Enquanto o real fica fora da inspiração.

Guernica é o nosso quotidiano mistificado
Pela sobrevivência envolta em fantasia.
São os militantes apelos midiáticos
Que fazem de Guernica uma constante.

A permanência como um dado de fato,
Transforma-se em determinação psicológica.
Aquela uma materialidade concreta,
Mudando a essencialidade da psique.

Guernica embora esteja em nós, intimamente,
É urgente livrarmo-nos dela constantemente.
É preciso que Guernica fique na história
Para ser superada dia a dia de nossa memória.

Pintura em tela. Guernica de Pablo Picasso

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A cabeleira de Beethoven

A cabeleira de Beethoven
(A Marcantonio)
Wellington Trotta

O peso da vida recai sobre ombros métricos.
Assim como Atlas carrega a Terra sobre os seus,
Beethoven expressa nossas angústias em versos
De uma melodia universal sem par, nos seus.

A diferença de um bigode para uma cabeleira,
É que esta demonstra um vigor leonino,
Enquanto aquele um ornamento ressentido.
Mais uma vez a música se sobressai à filosofia.

A sétima sinfonia desperta-nos para uma dança
Cujo primeiro movimento tem lentos passos
De um bailado reflexivo sob sons campestres,
Contrário da quinta sinfonia pela explosão de sentidos.

Beethoven é o mago dos sons escondidos sob sua cabeleira.
Profeta, pronuncia um novo mundo, solapando des-harmonias.
Filósofo, porque reflexivamente remete-nos ao eu
Sem despojá-lo de sua originalidade política.

A cabeleira de Beethoven é um desleixo qualquer,
Um bigode, e bem feito, é a perda da espontaneidade,
Requinte desnecessário de quem toma a essência pelo acidente.
A cabeleira é a solidez pesada da terceira sinfonia.

Nela o maestro rompe músicossocialmente com padrões
Cuja música ainda não atingira à condição de arte 
Em que a reflexão só pertencia à poesia e à pintura.
Beethoven transporta-nos do som ao conceito.

A oitava sinfonia, desconhecida da maioria, porém linda,
Aponta para novas etapas da harmonia que surda,
É ouvida na nona mais, absurdamente.
A cabeleira de Beethoven esmaga o quotidiano.

Beethoven é a sua própria cabeleira juvenil,
Embora o tempo a tenha consumido, como sempre o faz,
A quarta sinfonia como alegria da liberdade
Convida-nos ao canto da ciranda como superação.

Mais uma vez o poeta-filósofo da música alenta
Nossas almas com suas dores sem o ressentimento
Do sofrimento que enrijece as convicções,
Ao mesmo tempo em que flexiona as opiniões.

Beethoven é sua própria segunda sinfonia,
Nela há jovialidade, um misto ardente
De tempestade-ímpeto devastador
Onde a melodia é a síntese do verso-forma.

Beethoven é melodiosidade vivificada na surdez
Pela majestade dos seus quartetos cuja liberdade,
Majestaticamente irmana-se à igualdade:
É a música sob préstimos revolucionários.